Luís Lupi   (Visconde de Baçaim pelo Papa João XXIII)


Luís Caldeira  Lupi nasceu em 1901 (possivelmente no Alentejo) e foi o fundador da primeira agência noticiosa portuguesa, a Lusitânia. Jornalista, escreveu vários livros e monografias regionais sobre as antigas colónias portuguesas, essencialmente sobre Angola. Por exemplo "LÚPI, Luís C. (1956). A Imprensa e a Revolução Nacional".


da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira [por Miguel Alves Caetano]:

 

LUPI (Luis). Jornalista, de seu nome completo L. Caldeira L., n. em Lisboa a 27-XI-1901. Tem o curso telégrafo-postal e frequentou a Escola de Agrimensura de Lourenço Marques e a Universidade do Rand (King Edward's College) de Joanesburgo. É director da Associated Press em Portugal, fundador e director da agência noticiosa «Lusitânia», representante e correspondente do The African World, de Londres, e Irish Independent, de Dublim, director-secretário da Sociedade de Propaganda de Portugal e Touring-Club, presidente do Conselho Fiscal da Standard Eléctrica em Portugal. Foi director da Reuter durante 12 anos, fundador e director de Portugal-Exportador. Colabora, por intermédio da Associated Press, em milhares de jornais americanos e de outros países, tendo sido muito discutidas as suas reportagens sobre Tânger, Espanha, Alemanha e Inglaterra, durante a Segunda Grande Guerra. Organizou o Primeiro Congresso Nacional de Turismo (1935) de que foi secretário-geral. Fez numerosas conferências na Sociedade de Geografia, versando assuntos africanos e de política internacional. Publicou (1936) um livro Achtung! - Uma Civilização Ameaçada, de cerrada hostilidade contra a Rússia e o Comunismo Soviético, depois de uma viagem pela Europa devastada pela Guerra.

Faleceu na década de setenta.


Conta-nos Manuela Lupi e Costa que foi feito Visconde de Baçaim pelo Papa João XXIII


Artigo copiado de http://omundodassombras.blogspot.com/2010/12/o-lupi-das-barbas.html - enviado por José João Lupi (lupijj@gmail.com)  por e-mail em 05/12/2010

 

O Lupi das barbas

Controverso, viveu no regime anterior, entre as informações e a propaganda. Homem das esferas do poder, tinha acesso directo ao Presidente do Conselho e ao Presidente da República. Em 1962 a PIDE diagnosticava-lhe tendências pró americanas e pró inglesas. O seu ocaso inicia-se com a morte de Salazar. O 25 de Abril trar-lhe-ia a liquidação da ‘Lusitânia’, a agência noticiosa que criara em 1944, e o exílio. Na juventude recusara um emprego que Fernando Pessoa lhe sugerira, de correspondente em línguas estrangeiras em firmas comerciais.
 
Dia 4 de Dezembro de 1941. Aviões nipónicos atacam a base naval americana de Pearl Harbour, no Pacífico. Apanhados de surpresa, os yankees mal têm tempo para reagir. O resultado é o desastre.
Nessa noite o jornalista Luís Caldeira Lupi jantara no Gambrinus com sua mulher. Terminada a cuidada refeição seguiram para o cinema, a poucos passos dali. O Politeama era na altura um local aprazível.
O rápido evoluir da Guerra não o deixava, porém, tranquilo. Prevenindo qualquer eventualidade, deixara no escritório da agência de notícias de que era correspondente em Lisboa, a Reuter, indicação quanto ao local onde poderia ser encontrado.
A meio da exibição do filme dá-se o inesperado. Pelo altifalante do cinema «o senhor Lupi é convidado a ir ao telefone». Surpresa entre todos os que assistiam à película. Que se passaria?
Era o seu colega da Associated Press, em Berna, lugar onde se centralizavam todas as informações oriundas do vários correspondentes na Europa, a dar conta do traiçoeiro ataque nipónico e a pedir uma reacção oficial portuguesa.
Os passos de Lupi haviam sido, no entanto, seguidos pelo engenheiro Espregueira Mendes, na altura Sub-Secretário de Estado das Comunicações. Atónito, registou os apressados apontamentos que elucidavam quanto ao que se passara. A notícia assustava, prevendo-se já as suas funestas consequências.
Haveria que prevenir. Dali mesmo se telefonou, por isso, para a residência de Oliveira Salazar, o Presidente do Conselho de Ministros, informando-o do sucedido. Pressuroso, Lupi acrescenta que ante esta situação a América já estava em guerra e o Alemanha «em breve seria liquidada».
Tudo se passava então num círculo restrito.
Solitário na sua reclusão na Rua da Imprensa, o Presidente do Conselho não tinha o favor de conselheiros ou assessores que hoje em grande número coadjuvam os membros do Governo.
Com uma manta de lã em cima dos joelhos, para assim poupar energia em aquecimento, Salazar seguia o curso da guerra através do telégrafo que ia deixando notícia dos progressos militares e dos principais actos das chancelarias.
Activo, fiel, Lupi, que o Papa João XXIII elevaria à condição de Visconde Baçaim, vivia de alma e coração a sua profissão. Fundara em 1944, dirigira durante anos o escritório da Associated Press em Lisboa. O jornalismo era a sua devoção, as informações o seu ‘métier’.
Salazarista convicto, não deixaria de ter, porém, problemas com o regime ou pelo menos com alguns dos seus quadros. A entrevista de Salazar a António Ferro, que marcaria em 1938 um ponto alto na propaganda do Chefe, e que o Diário de Notícias publicou, seria resumida de modo considerado indesejável pelo colaboracionista e obediente Sindicato dos Jornalistas. Colocado em suspeita o jornalista autor das transcrições, o nome de Lupi acabou referenciado. Do relatório final elaborado pela PVDE consta esta informação de síntese, da autoria de Agostinho Lourenço da Conceição Fernandes, o seu director: “(…) aparece uma vez mais o nome de Luís Lupi. O seu passado pouco recomendável leva-me a admitir que é capaz do que se suspeita e de muito mais. As suas afinidades e relações, que não se justificam pela sua categoria, o seu trem de vida muito e muito superior ao normal e sobretudo aos que desempenham idêntica profissão, fazem-me crer que o Lupi, esquecendo-se que é português, não tem dúvida em servir estranhos que lhe pagam bem, mesmo que seja para colaborar em campanhas contra a sua Pátria”.
Estava criada a suspeita sobre se o homem que em 1944 viria a fundar a agência “Lusitânia” não estaria a soldo de serviços estrangeiros de informações.
Mau grado o ciúme e o despeito, é verdade que se tornaria indispensável. Na sua residência havia um telefone directo com que comunicava directamente com Salazar. Às quintas-feiras era recebido pelo Presidente da República.
A antipatia por Ferro marcar-lhe-ia muito do seu destino. Numa sua interessante biografia, editada em 1995 e prefaciada por Paradela de Abreu, Wilton Fonseca lembra um acontecimento desse turbulento ano de 1938. Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional haveria sugerido a Lupi que, através da Reuter, se passasse a falar “mais e melhor” de Portugal.
Agastado com o teor do convite e da sugestão, Lupi contra-ataca: “Em todas as circunstâncias, a Reuter é a única entidade com direito a decidir sobre qual o noticiário que deve ou não ser distribuído à imprensa e a ideia de nos oferecerem pagamento é absolutamente fora de questão”.
Estava criado o atrito. O “Lupi das barbas” como o individualizava Salazar, tornava-se mais útil nas informações do que na propaganda. Sem aquelas não há poder, sem esta não há regime. O homem que em 1936 escrevera ‘Achtung! Uma Civilização Ameaçada’ tornara-se o ‘informant’ e o conselheiro da Situação.
 
PS Na foto o Luís Lupi proferindo conferência na Sociedade de Geografia. Barbeado. Mais tarde o Regime rapá-lo-ia.

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